"Adeus, deus"
- Odilon José Roble

- 8 de jan.
- 4 min de leitura
Espetáculo de Sandro Borelli com coreografia criada para Balé da Cidade de São Paulo.
O espetáculo de Sandro Borelli não oferece consolo. Não há, em sua dramaturgia coreográfica, aquele expediente contemporâneo de suavizar o trágico com camadas de ironia ou de transformar o desespero em produto palatável. "Adeus, deus" é uma obra que encara a bancarrota da existência sem desvios, sem apelos, sem a promessa fácil de que a arte há de redimir o sofrimento. O que vemos são dois corpos atravessados pelo peso da presença, pela inexorabilidade do estar, e pela consciência aguda de que a vida, em sua essência, é fardo.

Arthur Schopenhauer compreendeu o corpo como algo mais que um recipiente da alma ou instrumento a serviço da razão, para ele o corpo é objetidade da Vontade, ou seja, uma força cega, insaciável, que nos impele a existir como corpo sem propósito superior ou finalidade metafísica. O corpo é onde a Vontade se torna imediata, tangível, onde ela se manifesta como necessidade e como impulso, como desejo que nunca irá se saciar plenamente. A coreografia de Borelli expõe precisamente essa objetidade: os corpos não estão ali para expressar sentimentos ou contar histórias, eles simplesmente estão. E nessa presença reside toda a tragédia. Cada movimento, em vez de ornamento ou performance, aparece como testemunho da Vontade encarnada, do peso ontológico de existir. Destituído das esperanças redentoras o corpo apenas está, o que paradoxalmente esvazia o repertório de sentidos para se apresentar, finalmente, como corpo forte: resoluto, ímpio e sem ressentimentos.
A ruína da ilusão que Schopenhauer diagnosticou está ali, na cena, incontornável. A vida é sofrimento porque é Vontade, e a Vontade é sempre insatisfação. Mesmo quando obtemos o que desejamos, a satisfação é breve, e logo somos lançados ao tédio ou a novos desejos, o que as espirais de movimentos entre os bailarinos vão encadeando em moto perpétuo. Borelli não ilustra a filosofia trágica. Isso seria didático demais, débil demais. Ele a corporifica. Os corpos, sem escape ou transcendência, permanecem condenados à própria presença, e é justamente nessa condenação que reside a potência da obra. Atravessar o sofrimento não conduz a lugar melhor; atravessar é tudo o que há, e mesmo assim não há chegada, apenas continuidade do atravessamento.
Há no duo uma cumplicidade trágica em sentido estrito: eles estão juntos porque o abandono é a condição partilhada. A relação entre os dois corpos escapa tanto ao romantismo do encontro que amenizaria a dor quanto à fantasia salvacionista do outro redentor. Ítalo Calvino escreveu, em "As Cidades Invisíveis", que o inferno dos vivos já está aqui, e que há duas maneiras de enfrentá-lo: "A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço." Borelli parece trabalhar nessa segunda via, sem qualquer otimismo, mas com coragem. Reconhecer, no inferno, quem não é inferno, e andar junto. Cumplicidade possível e simbiose de coragens.
Mas há ainda um beijo. Autofágico, devorador, um gesto que desintegra qualquer resíduo de esperança salvacionista que o estar junto pudesse oferecer. Tal beijo, em vez de comunhão, é consumo. É a confirmação de que, mesmo no estar junto, há destruição, de que a presença do outro não livra, pelo contrário, implica. E quanto melhor for a qualidade dessa companhia, mais violento será esse consumo. O inferno permanece inferno, a cumplicidade não é saída mas apenas abandono compartilhado, e mesmo esse compartilhamento tem custo: ser devorado, dissolver-se no outro sem que isso configure fusão amorosa, mas sim aniquilação mútua. O beijo explode a cena como uma espinha espremida no rosto, combinando descarga, compulsão escatológica e gozo sem alegria.

A presença em "Adeus, deus" é densa, inegociável, e incômoda. Há dois sentidos em operação. O primeiro é atravessar o tempo, o sofrimento, a duração. O segundo é suportar o peso, a gravidade da existência, a impossibilidade de fugir de si. Os corpos atravessam porque não há outra opção, e suportam porque a presença é pesada, é Vontade encarnada. A estética é seca, precisa, forte, indigesta. O fluxo acontece sem brechas, o tecido da coreografia se apresenta sem esgarçamentos. Tudo atropela com uma violência espartana, com uma austeridade quase soviética, naquela dureza material, naquela recusa de qualquer excesso que não seja estritamente necessário.
"Adeus, deus" dispensa truques e clichês. A obra tem integridade trágica. Borelli construiu um espetáculo que não facilita, que não oferece vias de escape emocionais ou interpretativas. É uma obra que exige que sejamos atravessados por ela, que suportemos sua densidade, que reconheçamos nela um confronto inevitável com aquilo que preferimos não ver: que a existência é fardo, que a companhia não redime, que o desejo não satisfaz, e que, ainda assim, seguimos.
Há no ceticismo da obra uma sensação de conciliação com a impotência que acalma o corpo. A proposta é reconhecer que, quando declinamos da ilusão de onipotência, quando paramos de lutar contra a natureza trágica da existência, algo se acalma. O que vem é o cessar da luta inútil, nem paz, nem felicidade, apenas presença. E nesse acalmar-se diante do inelutável há uma espécie de dignidade, talvez a única dignidade possível: a de sustentar um olhar firme sobre o abismo.
"Adeus, deus" é, assim, uma obra de arte autêntica porque não mente. Não mente sobre o corpo, não mente sobre a existência, não mente sobre o desejo, não mente sobre o outro. É um espetáculo que honra a tradição trágica sem nostalgias nem apropriações superficiais, e que demonstra que ainda é possível fazer dança que pense, que corte, que incomode, que importe. Em tempos de exibicionismo estético e facilidades interpretativas, Borelli oferece o oposto: uma coreografia que é gesto filosófico, uma filosofia que é carne agonizando. E isso, no inferno contemporâneo das artes cênicas, é um encontro com quem não é inferno.




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